sábado, 9 de maio de 2020

O mestre dos espaços (Belo texto do amigo Capovilla)




O mestre dos espaços
          

  Cristiano Capovilla*

            A título de homenagem ao professor de teatro Luiz Pazzini, resgato uma pequena crítica que realizei sobre uma das suas montagens realizadas na UFMA em 2007. A peça Diálogo das memórias: o imperador Jones foi apresentada no átrio, corredores e rampas do Centro de Ciências Humanas (CCH) a um público de aproximadamente cem pessoas. Elas tiveram que se deslocar pelos lugares inusitados do prédio para poder acompanhar o desenrolar do enredo. O público, a encenação, o texto e o deslocar pelos ambientes interagiram em uma mesma composição claramente experimental. Foi sobre o impacto dessa montagem que trago ao público minhas impressões, procurando lançar um feixe de luz sobre o pouco conhecido e debatido teatro contemporâneo maranhense.
            Destacam-se três trajetórias simultâneas e sobrepostas na montagem do Imperador Jones por Pazzini: a relação da apresentação com o público, o trabalho com o texto e a interação com o espaço.
            Estudioso de Bertolt Brecht, para quem o espaço da manifestação teatral sempre foi uma questão complexa, Pazzini incrementou a proposta de articular a montagem de forma que atores e espectadores se misturassem nos espaços, relacionando-se reciprocamente, fazendo interagir corpos, vozes, gestos, ocasionando ruídos que não podiam e nem deviam ser desprezados durante a própria encenação. Os contatos da peça com a realidade, incontroláveis e imprevisíveis, são assimilados pela própria trama, causando uma flutuação no agir cênico. Elevava, com isso, a relação ator-público, teatro-realidade, estética-ontologia, aos níveis teóricos mais altos dessa questão.
            Essa emersão da ação cênica em espaços inusitados, interagindo com a surpresa de um público que não esperava encontrar uma encenação em seu caminho, provoca uma mistura de emoções de onde surge uma realidade efêmera, sustentada por uma unidade de opostos. A relação entre atores, público e o meio onde se desenrola a peça provoca uma interação imoderada, conformando uma totalidade de contrários, evidenciando uma unidade, ainda que passageira, de elementos distintos. Essa parece ser a matéria-prima com qual a experiência teatral de Pazzini procurava trabalhar.
            A relação do público com a surpresa do experimento teatral foi, sem dúvida, a parte mais importante do espetáculo. Aqui se deu o resultado do choque de realidade: risos, medo, espanto, curiosidade, admiração, críticas, surpresa, atenção e desinteresse foram os sentimentos emitidos pelos espectadores presentes. Esse choque intencional parece querer provocar um rompimento com a apatia e causar um turbilhão de sentimentos em quem de alguma forma participa, mesmo a contragosto, da ação cênica. Nada mal para quem se arrisca no desenvolvimento de novas linguagens e procura integrá-las ao cotidiano de um espaço de estudos e trabalho.
            A conjunção peça-público desperta afetos que vão do desconforto consigo e com tudo aquilo que nos rodeia até a ira e a angústia por aquela audiência desejada-indesejada. Não se trata, a meu ver, da intenção do diretor de querer provocar um desalento imaturo e juvenil, na forma de um existencialismo subjetivista, mas, sim, de demonstrar o incômodo da fragmentação de perspectivas, do choque objetivo das contradições da realidade, a fim de externar estilhaços de um mundo em lutas, guerras, miséria, violência e ignorância. Os atores, ora sozinhos, ora em coro, causavam uma inquietação ao público ao trazerem à cena uma realidade incompleta, cindida e medíocre, que se mostrava contente no seu próprio mal-estar. Era isso que perturbava a audiência.
            Mas as consequências da montagem não pararam por aí. O incômodo foi o caminho encontrado para conduzir o expectador à reflexão, ao aprendizado, para a ação! O próprio acompanhamento do desenrolar da peça requeria um percurso do público pelos diversos espaços da universidade. Pazzini conseguiu provocar uma vontade, uma dúvida que inquietou e conduziu o expectador até o epílogo. O sofrimento, a angústia, passou a ser a ascese necessária à compreensão da obra e, ao fim e ao cabo, ao autoconhecimento de nós mesmos que a assistíamos.
            O texto base escolhido para a encenação foi o Imperador Jones (The Emperor Jones) do dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill, de 1920. É um texto complexo, que introduziu o expressionismo na cena teatral dos EUA e que mexe com alguns dos dramas mais caros à contemporaneidade. Na trama, Jones é um negro pobre que ascendeu através de um crime à condição de rei déspota e tirano cujos súditos são também negros. Estes se revoltam, tomam o poder e levam Jones à morte. Mas é em cena que os diálogos mostram a psique caleidoscópica dos personagens. Na montagem de Pazzini, o longo diálogo introdutório foi executado por quatro atores, o que deu dinâmica, velocidade e centralidade ao prólogo, deixando transparecer todos os caminhos psicológicos, políticos e sociais que aparecem no debate entre Jones e seu assessor Smithers.
            O diretor também coteja o texto de O’Neill com outros textos, selecionados a partir de uma vivência própria, de outras montagens, cujo resultado é uma seleta de passagens que ruminam sentenças anteriormente já ingeridas pelo público. Temos, assim, o desfile de autores teatrais e filósofos do porte de Bertolt Brecht, Walter Benjamim, Albert Camus, George Orwell, Heine Müller e, como não poderia deixar de ser, a inserção de autoras maranhenses como Lenita Estrela de Sá e Maria Firmina dos Reis, trazendo para nossa aldeia o universal do realismo norte-americano.
            O trabalho com o texto em um experimento teatral é a ponte entre o público e a obra. Essa ponte é materializada nos usos da linguagem. O choque de realidade é, antes de tudo, um atravessar de horizontes linguísticos. Há um estranhamento na comunicação, um jogo entre o dito e o não dito, onde o expectador reclama do deslocamento do seu entendimento imediato, mas, mesmo assim, acompanha os signos vocalizados na montagem do texto, pois no seu íntimo reconhece como comum o que a princípio lhe parecia distante e inacessível. Aqui, mais uma vez, Pazzini levou ao limite o trabalho com o texto. Ao que parecia ele não tinha medo de arriscar na narrativa fracionada do seu teatro experimental. E o resultado foi sempre surpreendente.
            Ao romper com a cisão entre ator e espectador nas montagens, utilizando espaços inusitados na própria arquitetura da universidade, sobressaia ainda uma terceira trajetória do seu teatro que deriva reflexão: os vínculos entre espaço-morto e espaço-vivo na arquitetura onde trabalhamos e vivemos. Ao desenvolver o contexto cênico em locais comuns de trabalho, estudo e nos espaços-mortos – aqueles que aparentemente parecem não ter utilidade – da nossa universidade, a peça nos chamava a questionar mais profundamente a relação entre a arte e o cotidiano.
            Ao expressar trabalho artístico em locais não utilizados, os chamados espaços-mortos, recompomos a própria noção de ambiente a partir do sujeito (ator-expectador), que, ao encontrar arte onde não deveria haver nada, supera o utilitarismo que fraciona os ambientes da vida, fazendo da cena teatral em um lugar inusitado uma profunda crítica à divisão do trabalho, do saber e do lazer, fator preponderante da alienação dos espíritos. Pela força da arte, o espaço arquitetônico deixa de ser compreendido apenas como um espaço geométrico, neutro, que distancia e separa o útil do inútil, passando a ser enxergado como um espaço público, unificador, vivo, atual e possível. Os espaços abertos devem aproximar nossas ações. Essa foi uma característica singular do trabalho experimental do teatro de Pazzini.
            Com todas as dificuldades inerentes ao fazer teatro em nosso estado, na nossa cidade e em nossa universidade, enfrentando toda sorte de carência e falta de apoio, Pazzini e seu grupo não temiam experimentar novas linguagens teatrais. O choque de realidade e a reação do público-surpresa se tornou mais efetiva, menos óbvia e por isso mesmo mais interessante. A UFMA e o seu curso de Teatro estão de parabéns. Se pudermos caracterizar o trabalho de Pazzini na cena teatral maranhense com apenas uma oração, poderíamos afirmar que se trata sem dúvida de um mestre dos espaços cênicos.
            Pazzini, presente! Agora e sempre!
* Professor de Filosofia COLUN/UFMA


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