quinta-feira, 6 de agosto de 2020

terça-feira, 26 de maio de 2020


Rio Preguiças em Barreirinhas, região dos Lençóis Maranhenses.

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada, nada
 Alice Ruiz

domingo, 10 de maio de 2020

Ilha de Algodoal/PA


Imagens colhidas na Praia da Princesa na Ilha de Algodoal, paradisíaco recanto localizado no litoral do Pará, onde não circulam veículos motorizados, o deslocamento é feito a pé ou nas charretes que transportam os visitantes ou moradores para outras localidades da ilha. Chega-se na ilha saindo de Belém até o porto de Marudá no município de Carapanim; de lá, pega-se uma embarcação a motor, após uma tranquila travessia de cerca de quarenta minutos, temos a recompensa com tanta beleza natural, sossego e boa receptividade.

sábado, 9 de maio de 2020

Trabalho no terminal pesqueiro no Rio Periá, município de Humberto de Campos/MA, onde começam os Lençóis Maranhenses

O mestre dos espaços (Belo texto do amigo Capovilla)




O mestre dos espaços
          

  Cristiano Capovilla*

            A título de homenagem ao professor de teatro Luiz Pazzini, resgato uma pequena crítica que realizei sobre uma das suas montagens realizadas na UFMA em 2007. A peça Diálogo das memórias: o imperador Jones foi apresentada no átrio, corredores e rampas do Centro de Ciências Humanas (CCH) a um público de aproximadamente cem pessoas. Elas tiveram que se deslocar pelos lugares inusitados do prédio para poder acompanhar o desenrolar do enredo. O público, a encenação, o texto e o deslocar pelos ambientes interagiram em uma mesma composição claramente experimental. Foi sobre o impacto dessa montagem que trago ao público minhas impressões, procurando lançar um feixe de luz sobre o pouco conhecido e debatido teatro contemporâneo maranhense.
            Destacam-se três trajetórias simultâneas e sobrepostas na montagem do Imperador Jones por Pazzini: a relação da apresentação com o público, o trabalho com o texto e a interação com o espaço.
            Estudioso de Bertolt Brecht, para quem o espaço da manifestação teatral sempre foi uma questão complexa, Pazzini incrementou a proposta de articular a montagem de forma que atores e espectadores se misturassem nos espaços, relacionando-se reciprocamente, fazendo interagir corpos, vozes, gestos, ocasionando ruídos que não podiam e nem deviam ser desprezados durante a própria encenação. Os contatos da peça com a realidade, incontroláveis e imprevisíveis, são assimilados pela própria trama, causando uma flutuação no agir cênico. Elevava, com isso, a relação ator-público, teatro-realidade, estética-ontologia, aos níveis teóricos mais altos dessa questão.
            Essa emersão da ação cênica em espaços inusitados, interagindo com a surpresa de um público que não esperava encontrar uma encenação em seu caminho, provoca uma mistura de emoções de onde surge uma realidade efêmera, sustentada por uma unidade de opostos. A relação entre atores, público e o meio onde se desenrola a peça provoca uma interação imoderada, conformando uma totalidade de contrários, evidenciando uma unidade, ainda que passageira, de elementos distintos. Essa parece ser a matéria-prima com qual a experiência teatral de Pazzini procurava trabalhar.
            A relação do público com a surpresa do experimento teatral foi, sem dúvida, a parte mais importante do espetáculo. Aqui se deu o resultado do choque de realidade: risos, medo, espanto, curiosidade, admiração, críticas, surpresa, atenção e desinteresse foram os sentimentos emitidos pelos espectadores presentes. Esse choque intencional parece querer provocar um rompimento com a apatia e causar um turbilhão de sentimentos em quem de alguma forma participa, mesmo a contragosto, da ação cênica. Nada mal para quem se arrisca no desenvolvimento de novas linguagens e procura integrá-las ao cotidiano de um espaço de estudos e trabalho.
            A conjunção peça-público desperta afetos que vão do desconforto consigo e com tudo aquilo que nos rodeia até a ira e a angústia por aquela audiência desejada-indesejada. Não se trata, a meu ver, da intenção do diretor de querer provocar um desalento imaturo e juvenil, na forma de um existencialismo subjetivista, mas, sim, de demonstrar o incômodo da fragmentação de perspectivas, do choque objetivo das contradições da realidade, a fim de externar estilhaços de um mundo em lutas, guerras, miséria, violência e ignorância. Os atores, ora sozinhos, ora em coro, causavam uma inquietação ao público ao trazerem à cena uma realidade incompleta, cindida e medíocre, que se mostrava contente no seu próprio mal-estar. Era isso que perturbava a audiência.
            Mas as consequências da montagem não pararam por aí. O incômodo foi o caminho encontrado para conduzir o expectador à reflexão, ao aprendizado, para a ação! O próprio acompanhamento do desenrolar da peça requeria um percurso do público pelos diversos espaços da universidade. Pazzini conseguiu provocar uma vontade, uma dúvida que inquietou e conduziu o expectador até o epílogo. O sofrimento, a angústia, passou a ser a ascese necessária à compreensão da obra e, ao fim e ao cabo, ao autoconhecimento de nós mesmos que a assistíamos.
            O texto base escolhido para a encenação foi o Imperador Jones (The Emperor Jones) do dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill, de 1920. É um texto complexo, que introduziu o expressionismo na cena teatral dos EUA e que mexe com alguns dos dramas mais caros à contemporaneidade. Na trama, Jones é um negro pobre que ascendeu através de um crime à condição de rei déspota e tirano cujos súditos são também negros. Estes se revoltam, tomam o poder e levam Jones à morte. Mas é em cena que os diálogos mostram a psique caleidoscópica dos personagens. Na montagem de Pazzini, o longo diálogo introdutório foi executado por quatro atores, o que deu dinâmica, velocidade e centralidade ao prólogo, deixando transparecer todos os caminhos psicológicos, políticos e sociais que aparecem no debate entre Jones e seu assessor Smithers.
            O diretor também coteja o texto de O’Neill com outros textos, selecionados a partir de uma vivência própria, de outras montagens, cujo resultado é uma seleta de passagens que ruminam sentenças anteriormente já ingeridas pelo público. Temos, assim, o desfile de autores teatrais e filósofos do porte de Bertolt Brecht, Walter Benjamim, Albert Camus, George Orwell, Heine Müller e, como não poderia deixar de ser, a inserção de autoras maranhenses como Lenita Estrela de Sá e Maria Firmina dos Reis, trazendo para nossa aldeia o universal do realismo norte-americano.
            O trabalho com o texto em um experimento teatral é a ponte entre o público e a obra. Essa ponte é materializada nos usos da linguagem. O choque de realidade é, antes de tudo, um atravessar de horizontes linguísticos. Há um estranhamento na comunicação, um jogo entre o dito e o não dito, onde o expectador reclama do deslocamento do seu entendimento imediato, mas, mesmo assim, acompanha os signos vocalizados na montagem do texto, pois no seu íntimo reconhece como comum o que a princípio lhe parecia distante e inacessível. Aqui, mais uma vez, Pazzini levou ao limite o trabalho com o texto. Ao que parecia ele não tinha medo de arriscar na narrativa fracionada do seu teatro experimental. E o resultado foi sempre surpreendente.
            Ao romper com a cisão entre ator e espectador nas montagens, utilizando espaços inusitados na própria arquitetura da universidade, sobressaia ainda uma terceira trajetória do seu teatro que deriva reflexão: os vínculos entre espaço-morto e espaço-vivo na arquitetura onde trabalhamos e vivemos. Ao desenvolver o contexto cênico em locais comuns de trabalho, estudo e nos espaços-mortos – aqueles que aparentemente parecem não ter utilidade – da nossa universidade, a peça nos chamava a questionar mais profundamente a relação entre a arte e o cotidiano.
            Ao expressar trabalho artístico em locais não utilizados, os chamados espaços-mortos, recompomos a própria noção de ambiente a partir do sujeito (ator-expectador), que, ao encontrar arte onde não deveria haver nada, supera o utilitarismo que fraciona os ambientes da vida, fazendo da cena teatral em um lugar inusitado uma profunda crítica à divisão do trabalho, do saber e do lazer, fator preponderante da alienação dos espíritos. Pela força da arte, o espaço arquitetônico deixa de ser compreendido apenas como um espaço geométrico, neutro, que distancia e separa o útil do inútil, passando a ser enxergado como um espaço público, unificador, vivo, atual e possível. Os espaços abertos devem aproximar nossas ações. Essa foi uma característica singular do trabalho experimental do teatro de Pazzini.
            Com todas as dificuldades inerentes ao fazer teatro em nosso estado, na nossa cidade e em nossa universidade, enfrentando toda sorte de carência e falta de apoio, Pazzini e seu grupo não temiam experimentar novas linguagens teatrais. O choque de realidade e a reação do público-surpresa se tornou mais efetiva, menos óbvia e por isso mesmo mais interessante. A UFMA e o seu curso de Teatro estão de parabéns. Se pudermos caracterizar o trabalho de Pazzini na cena teatral maranhense com apenas uma oração, poderíamos afirmar que se trata sem dúvida de um mestre dos espaços cênicos.
            Pazzini, presente! Agora e sempre!
* Professor de Filosofia COLUN/UFMA


sexta-feira, 8 de maio de 2020

domingo, 16 de março de 2014

Ganhar na Mega-Sena ou tomar um bom café?

Eu descubro que a Mega-Sena está acumulada novamente quando vejo as filas para fora das casas lotéricas. É interessante pensar que mais pessoas resolvem jogar quanto maior é o prêmio oferecido. Acho que é porque no fundo todo mundo sabe que as chances são absurdamente pequenas, evitando por isso gastar tempo com o trabalho de ir até a lotérica, pagar, preencher o bilhete etc. Com mais dinheiro, contudo, a tentação deve ser maior, imagino, levando o sujeito a enfrentar filas, gastando mais tempo, apesar de ter exatamente as mesmas – ridículas – chance de ganhar (a única coisa que aumenta é o risco de ter que dividir o prêmio, já que mais gente joga).
No filme Antes do pôr do sol, segundo da trilogia do diretor Richard Linklater com o casal Ethan Hawke e Julie Delpy, durante um dos envolventes diálogos – que constituem quase o filme todo – Hawke diz que foi comprovado que ganhar na loteria não traz felicidade. Ele dá até detalhes, dizendo que não fazia diferença ganhar dinheiro ou ficar paralítico no longo prazo.
É por aí mesmo. O roteiro citava aqui – com propriedade – o estudo clássico da década de 70, no qual os pesquisadores compararam setenta e três pessoas, 22 que ganharam prêmios na loteria americana (de até 1 milhão de dólares), 29 que ficaram paraplégicas por causa de acidentes e 22 sem eventos significativos na vida. Perguntando sobre a felicidade e os prazeres do dia-a-dia, descobriu-se que as pessoas que sofreram acidentes tendiam a glamorizar o passado, pois se consideravam mais felizes do que a média das pessoas antes de perderem os movimentos. Já dentre os ganhadores, menos de um quarto experimentou mudanças significativas no estilo de vida, não se sentido mais felizes do que as pessoas em geral. O mais interessante, contudo, é que os pequenos prazeres da vida, como conversar com amigos, ver televisão, tomar um bom café da manhã, ler uma revista ou comprar roupas foram classificados como menos interessantes ou prazerosos pelos ganhadores do que pelos paralíticos e o grupo controle.
O pior é que, com o passar do tempo o padrão se manteve. Quer dizer: ganhar na loteria parece ser uma felicidade tão grande que rouba a alegria das pequenas recompensas do cotidiano, mas sem oferecer uma outra forma de satisfação em troca.
Mas não precisa se preocupar com isso: aposto o dez vezes o que você pagou no seu bilhete como você não será sorteado. O que certamente não te fará infeliz.
Por Daniel da Barros(Psiquiatra)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Um Boeing a cada seis dias

Um Boeing a cada seis dias - ROGÉRIO GENTILE

SÃO PAULO - O crescimento do uso de motocicletas é tão alucinante que, mantido o ritmo atual, é possível dizer que na próxima década a frota em duas rodas ultrapassará a de carros. A consequência disso é facilmente verificável em funerárias e cemitérios do país, a despeito da pouca importância que se dá ao assunto nos gabinetes oficiais.
    Pelo menos 40 motoqueiros morrem diariamente nas ruas do Brasil, segundo os últimos dados conhecidos, de 2011. Em 1998, eram cinco por dia. Na prática, é como se atualmente a cada seis dias um Boeing-777 desaparecesse no oceano sem deixar vestígios. O número é maior que o de óbitos por atropelamento (32/dia) ou em acidentes de carro (34/dia), diferença que aumenta a cada ano.
    O "motocídio" cresce mais rapidamente até do que a própria violência urbana. Se, em 1996, um motociclista morria a cada 27 pessoas assassinadas no Brasil, em 2011 houve um óbito em acidente de moto para cada 3,5 homicídios.
    Os dados são ainda mais preocupantes se comparados com os internacionais. Segundo o "Mapa da Violência 2013", estudo muito bem-feito pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, o Brasil tem a 13ª pior taxa de mortalidade numa lista de 122 países pesquisados. Foram 7,1 mortos em 2010 para cada 100 mil habitantes. Pior, por exemplo, que Índia (6,1), Uganda (5,0), Costa do Marfim (3,4), Venezuela (1,5), Argentina (1,3) e México (0,6).
    Apesar do índice elevado de óbitos --e dos gastos astronômicos com hospitais e custos previdenciários--, o governo continua a estimular o uso de motocicletas, facilitando, por exemplo, o financiamento nos bancos oficiais. Chega a ser mais barato pagar uma prestação no final do mês do que utilizar transporte público. Mais grave ainda é autorização para que motoqueiros circulem entre duas filas de carros, em espaços apertadíssimos. Ao contrário do que se pensa, no Brasil existe, sim, "corredor da morte".